quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carta que nunca será

Desisti.

Juro que desisti.


A partir de agora, vou cuidar única e exclusivamente da minha felicidade. Preocupar-me em encontrar minha cara metade, ter um casamento regado a champagne e bons amigos. Cuidar, criar e amar meus filhos. Arrumar um bom emprego, desses que me dê um bom status social, afinal, passei anos em uma boa faculdade e quero colher os bons frutos disso.


O que acontece de ruim ao meu redor, gostaria que permanecesse sob essa condição de só ser "ao meu redor". Sei que são coisas a serem combatidas, mas, por favor, fome, miséria, desemprego e analfabetismo fiquem longe de mim e de quem eu amo. Quero a alegria deles e a minha.

Não me envolverei mais com política e nem quero saber de mais nada do planalto central. Pra mim, já basta ser obrigada a votar de 2 em 2 anos. Políticos mentirosos que fiquem nos seus devidos lugares. Tanto faz qual o modelo de gestão de um ou de outro, no final, todos são iguais. Faço parte da classe que mais prospera e possui mais acesso a informação no país, sei do que estou falando. Ah, sempre mantendo a devida distancia, exijo um país livre de corrupção, não quero esses caras roubando meu dinheiro!

Continuarei mantendo meu discurso de que o mundo precisa ser mais sustentável. Afinal, o verde nunca sai de moda. Meus carros e os de cada um dos meus filhos sempre serão das marcas de cunho ambiental, que fique aqui registrado.


A possibilidade de mudança de país ainda bate forte em minha mente. Não por querer vivenciar novas culturas e ter novas vivencias, não, disso já provei bastante. Mas não suporto atrasar mais de 30 minutos pro trabalho por conta de vagabundo que se diz daquele movimento sem terra na rua atrapalhando minha vida! Isso é uma falta de respeito com o cidadão de bem que dá duro todo dia, nós só queremos trabalhar e depois voltar para o conforto de nossas casas, será possível?


Pois é, desisti...muito em breve estarei em Paris, Viena ou Nova York. Identifico-me mais com o estilo primeiro-mundo-sem-problemas de ser. Afinal, o que eu quero é ser feliz, né?

Fica aqui meu recado. Adiós baby, vocês que decidam como vai ser o futuro desse país.

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Qualquer semelhança não é mera coincidência. Muitos trechos desse texto foram baseados em fatos reais, retirados de falas de pessoas ao nosso redor (um pouco assustador). Essa é uma carta que escrevi só para fins irônicos, como nesse blog.



5 comentários:

  1. Texto bem interessante...

    Vai ter muita gente que vai se identificar e tomara que percebam a besteira que estão fazendo ao ignorar o processo político...

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  2. Massa, abordagem apropriada ;)

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  3. Méle,
    Sensível, sentimental, irônico e verdadeiro. Muitos, inclusive eu, nos vemos fotografados em algumas linhas de sua lente literária.

    É dificil querer ser neutro ou "alienado" quando está no nosso DNA o ser politico e social.

    Beijos
    Ulisses - (Papai)

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  4. Natália Valadares30 de outubro de 2010 22:06

    Primeiro, como já havia dito, esse texto me deixou muito surpresa em ver outras faces do seu poder de comunicação. Muito interessante, e, ao mesmo tempo, é impossível de não ver Maria Arméle nele, acho que por isso fica tão rico, também.
    E segundo que eu darei ctrl c + ctrl v no que seu pai disse! Adorei!
    Beijos! Por favor, continue a nos surpreender mais!

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  5. Eu sei que você vai longe! Só basta acreditar :)

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